Em 2013, depois de anos trabalhando com desenvolvimento e infraestrutura, decidi tentar algo diferente. Abri um negócio no ramo alimentício.

Não foi uma decisão impulsiva. Foi calculada — e mesmo assim me surpreendeu em quase tudo.

Três anos depois, vendi o negócio com lucro e voltei para a tecnologia. Mas não voltei a mesma pessoa.

Por que sair da tecnologia?

Naquela época, eu estava num ponto de inflexão. Tinha acumulado experiência técnica sólida, mas sentia que faltava algo: entender o outro lado do negócio. Como decisões financeiras são tomadas. Como clientes reais se comportam. Como operação física funciona — com todos os seus imprevistos que nenhum sistema de software consegue prever direito.

A tecnologia me dava controle sobre ambientes determinísticos. Queria entender ambientes caóticos.

O que o mundo físico ensina sobre sistemas

A primeira lição foi sobre dependências invisíveis.

No software, você mapeia suas dependências: bibliotecas, serviços externos, banco de dados. No negócio físico, as dependências são infinitas e opacas: fornecedor que atrasa, equipamento que quebra, funcionário que falta, clima que muda a demanda.

Aprendi a operar com buffers — estoque de segurança, caixa de emergência, processos redundantes. Quando voltei para a tecnologia, passei a pensar da mesma forma: que acontece se esse serviço cair? Que acontece se esse desenvolvedor sair de férias?

Resiliência não é um requisito técnico. É uma mentalidade.

Métricas que importam versus métricas que confortam

No software, é fácil criar dashboards bonitos com dezenas de métricas. A maioria não leva a nenhuma decisão.

No negócio físico, você aprende rápido quais números importam de verdade: ticket médio, custo de mercadoria vendida, giro de estoque, ponto de equilíbrio. Você os acompanha todo dia porque a sobrevivência do negócio depende deles.

Quando voltei para tecnologia, passei a aplicar o mesmo rigor: quais métricas deste sistema, se mudassem, me fariam tomar uma decisão diferente? Essas são as métricas que importam. O resto é ruído.

Vender é uma habilidade técnica

Ninguém me ensinou a vender. Fui aprender na prática, com rejeição e tudo.

O que descobri é que vender bem tem mais a ver com escutar do que com falar. Você entende o problema do cliente, apresenta como sua solução resolve aquele problema específico, e remove os obstáculos para a decisão.

Isso é, estruturalmente, o mesmo processo de levantar requisitos, propor arquitetura e conseguir aprovação de stakeholder. As habilidades são as mesmas — só o vocabulário muda.

Desde então, fiquei muito melhor em apresentar propostas técnicas, defender prioridades de refatoração e conseguir investimento em débito técnico.

A saída planejada

Vender o negócio com lucro foi resultado de planejamento, não de sorte.

Desde o início, tratei o negócio como um ativo — não como um emprego. Documentei processos, reduzi a dependência da minha presença física, construí uma operação que funcionava sem mim.

Isso tornou o negócio vendável. E é exatamente o que faz um sistema de software ser mantível: documentação, baixo acoplamento, e código que não depende de uma pessoa específica para ser entendido.

O que eu diria para quem está considerando

Se você pensa em abrir um negócio fora da tecnologia: faça. Não porque vai funcionar (pode não funcionar), mas porque o que você aprende sobre operação, clientes e finanças vai tornar você um profissional de tecnologia substancialmente melhor.

E se não funcionar — desde que você planeje a saída com antecedência — você volta com mais do que saiu.

A tecnologia não vai a lugar nenhum. O aprendizado fora dela é que tem prazo de validade.